Friday, February 01, 2008

E quanto vale uma vida?

Dentre todas as ações e mobilizações humanas, nada é mais espantoso e execrável quanto o ato de guerrear. Nada é mais contrário, mais avesso do que a guerra. Bastam relatos, filmes, imagens, sons gravados de uma guerra para surgir a angústia e o pesar, até mesmo o medo e a indignação. No entanto, por mais que se tente exprimir, não existe forma alguma de expressar totalmente o desespero sem ter estado em uma, sentindo o calor das chamas de uma explosão, ou o terror proveniente das balas e mísseis que atravessam o ar durante a noite, despertando aqueles que não podem nada fazer para detê-los.
O combate, a Guerra, é uma prática inerente ao homem. Por territórios, mulheres, propriedades, enfim, os homens lutam e sempre lutarão, seguindo seus instintos. Porém, deste último século para cá, desde o advento de Hitler, o combate tem-se destorcido. Já não guerreiam os interessados e capazes para isto, nem por motivos, digamos, plausíveis (digamos, pois para tal prática não há explicação racional). Trazendo a Blitzkrieg, a Segunda Grande Guerra passou a definir o campo de batalha em qualquer local, seja habitado (quanto melhor) ou não. Destroem onde houver homens, civis ou militares, mas áptos a batalhar. Uma forma inteligente de afetar no âmago do inimigo, destruindo sua família e casa. Não que tal prática ou a tortura já não existisse, alias são comuns desde muito que se lembre, porém em massa e com tal repercussão, não havia. Os alemães inovaram o jeito de fazer guerra.
Estas batalhas valoram a vida. Quanto vale a vida de cinqüenta milhões de pessoas (dentre eles crianças e idosos)? O mercado europeu, de certo. Mesmo com indulgências políticas e ideológicas, não há como ocultar a realidade; como vê-se mesmo nas Grandes Guerras ou na Guerra “Fria” – os vietnamitas que o digam!
É muitas vezes proferida a comparação do homem com animais nestas situações, porém seria uma grande afronta aos pobres bichos tal assertiva. Os animais agem por instinto somente, matam até onde vai sua fome e ameaça; seguem rigorosamente a cadeia alimentar em sua inocência. O homem, por sua vez, mata por mero orgulho, ego.A sua consciência é uma arma poderosa, um presente destorcido e utilizado para o mal. Como entender casos de abusos sexuais a crianças seguidos de assassinatos? O estupro de mulheres muçulmanas, sabendo que estas serão renegadas por sua família por carregarem o filho do inimigo, preferindo assim a morte e condenando-se, segundo sua crença, ao inferno? Casos de torturas onde soldados arrancam bebês do ventre materno, lançam-nos no ar para recebê-los nas pontas de baionetes, sob os olhos das mães, cuja presença constitui o principal prazer?
A consciência, como já foi dito, é a dádiva e a perdição do homem. Ela o salva e o condena. O que dizer de tais mães que são torturadas desta forma em uma situação bélica? “ Tudo é para o bem da pátria, da humanidade”, todo e qualquer sofrimento será válido pela honra. Mais uma vez se valora o único bem inestimável e sem restituição. Que dinheiro ou honra paga o trauma de uma criança de seis anos que vivencia tais atrocidades; é o fim mais dolorido de uma vida que jamais começou e nem engrenará – uma nostalgia ao contrário.
Em um quadro dantesco o homem se perde. Na ação de valorar ao invés de valorizar o bem mais precioso, sem estimativa, sem reposição – único – ele vulgariza a si próprio. Na intenção de se fazer Deus, se faz demônio.