José Saramago-Ensaio sobre a cegueira
Se você quiser ler leia. Mas não me culpe por ver aqui digitado, um trecho do livro que um dia você poderá vir a ler.
A rapariga de óculos escuros chorava em silêncio. O cego da pistola retirou o sexo que ainda vinha a pingar e disse com voz vacilante, enquanto estendia o braço para a mulher do médico, não tenhas ciúmes, já vou tratar de ti, e depois subindo o tom, Eh, rapazes, podem vir buscar esta, mas tratem-na com carinho , que ainda posso precisar dela. Meia dúzia de cegos avançaram de rebolão pela coxia, deitaram mãos à rapariga dos óculos escuros, levaram-na quase de rastos, Primeiro eu, primeiro eu, diziam todos. O cego da pistola tinha-se sentado na cama o sexo flácido estava pousado na beira do colchão , as calças enroladas aos pés. Ajoelha-te aqui, entre as minhas pernas, disse. A mulher do médico ajoelhou-se.Chupa , disse ele, Não, disse ela, Ou chupas, ou bato-te, e não levas comida, disse ele, Não tens medo de que o arranque à dentada, perguntou ela,Podes experimentar, tenho as mãos no teu pescoço,estrangulava-te antes que chegasses a fazer-me sangue , respondeu ele. Depois disse, Estou a reconhecer a tua voz, E eu a tua cara, És cega, não podes me ver, Não, não posso te ver , Então por que dizes que reconheces a minha cara , Por que essa voz só pode ter essa cara, Chupa, e deixa-te de conversa fina, Não, Ou chupas ou na tua camarata nunca mais entrará uma migalha de pão,vai lá dizer-lhes que se não comerem é por que te recusaste a chupar-me, e depois volta para me contares o que sucedeu. A mulher do médico inclinou-se para diante, com as pontas de dois dedos da mão direita segurou e levantou o sexo pegajoso do homem, a mão esquerda foi apoiar-se no chão (...)Avançou a cabeça ,abriu a boca, fechou-a, fechou os olhos para não ver, começou a chupar.
Obs.: a mulher do médico, era a única, que não era cega.
