Friday, September 16, 2005

Pensamentos por aí

"Se a cabeça não pensa, é o corpo que padece."

Vem de novo, correndo, cabelos que se espalham. Pára, cai, desaba.Chora, sente como se fosse morrer, lágrima, dor, sensação estranha de sentir.Se levanta, a vida continua,já chorou o bastante, já penou o bastante, já ouviu o suficiente, já sofreu o suficiente. A culpa é do mundo, a culpa é sua, a culpa é minha.Chega disso tudo, um novo começo, um começo novo.Senta, escreve o dia de amanhã.A valsa, dois pra lá, dois pra cá, e com calma coloca na partitura as notas da sua vida.Amassa o papel, joga no lixo, o futuro não te pertence, não me pertence.Pensa, então vivo "ao léu"?Não. É possível rabiscar, apagar, escrever por cima, mas não redigí-lo. Então agora vivo, vive, vivem.

Por que que você senta no chão quando vai estudar?
Às vezes da vontade de ser louca, e por que não, não?

Incostante, porém consciente.

Monday, September 12, 2005

José Saramago-Ensaio sobre a cegueira

Se você quiser ler leia. Mas não me culpe por ver aqui digitado, um trecho do livro que um dia você poderá vir a ler.


A rapariga de óculos escuros chorava em silêncio. O cego da pistola retirou o sexo que ainda vinha a pingar e disse com voz vacilante, enquanto estendia o braço para a mulher do médico, não tenhas ciúmes, já vou tratar de ti, e depois subindo o tom, Eh, rapazes, podem vir buscar esta, mas tratem-na com carinho , que ainda posso precisar dela. Meia dúzia de cegos avançaram de rebolão pela coxia, deitaram mãos à rapariga dos óculos escuros, levaram-na quase de rastos, Primeiro eu, primeiro eu, diziam todos. O cego da pistola tinha-se sentado na cama o sexo flácido estava pousado na beira do colchão , as calças enroladas aos pés. Ajoelha-te aqui, entre as minhas pernas, disse. A mulher do médico ajoelhou-se.Chupa , disse ele, Não, disse ela, Ou chupas, ou bato-te, e não levas comida, disse ele, Não tens medo de que o arranque à dentada, perguntou ela,Podes experimentar, tenho as mãos no teu pescoço,estrangulava-te antes que chegasses a fazer-me sangue , respondeu ele. Depois disse, Estou a reconhecer a tua voz, E eu a tua cara, És cega, não podes me ver, Não, não posso te ver , Então por que dizes que reconheces a minha cara , Por que essa voz só pode ter essa cara, Chupa, e deixa-te de conversa fina, Não, Ou chupas ou na tua camarata nunca mais entrará uma migalha de pão,vai lá dizer-lhes que se não comerem é por que te recusaste a chupar-me, e depois volta para me contares o que sucedeu. A mulher do médico inclinou-se para diante, com as pontas de dois dedos da mão direita segurou e levantou o sexo pegajoso do homem, a mão esquerda foi apoiar-se no chão (...)Avançou a cabeça ,abriu a boca, fechou-a, fechou os olhos para não ver, começou a chupar.


Obs.: a mulher do médico, era a única, que não era cega.

Monday, September 05, 2005

(para ler-se devagar, bem devagar, quase parando)

Era um dia ruim, não tinha feito nada de novo, um dia no qual precisava de um abraço, um beijo, um carinho de quem amava, no entanto, recebeu contas, broncas, xingamentos, doenças, trotes, humilhações, mas um dia assim, mas um dia ruim, 365 dias de tristeza e solidão, olhava pela janela do décimo segundo andar, e via aquela selva de pedra, de pobreza, pessoas pisando uma nas outras para se dar bem, e se via, se via na base dessa pirâmide, sendo massacrada, abre a janela, e sente o vento batendo em seu rosto, um ar que todos respiram, um ar sujo e podre, que sai dos pulmões das piores pessoas e chega até sua casa, trazendo cada vez mais podridão, olha para baixo e vê a piscina, com aquele fundo azul que até parecia ser da própria água, e vê que o volume de água é o mesmo volume de lágrimas que têm chorado durante anos, sobe no para peito da janela, pensa na infância, nas brincadeiras de rua, nos amigos que achava que iam ser para sempre, na alegria que virou desgraça, pela última vez olha para dentro de casa, e percebe o tanto de porcaria que havia acumulado durante anos, anos, 37 anos, e ela se joga, se joga para o que acreditava ser a solução, não estava pensando em nada, não conseguia, só percebia a aproximação do chão, que por fim chegou.......e já não estava mais aqui, caiu ao lado da piscina, onde água e sangue se misturaram e se uniram em uma só palavra.............decepção.


Obs.: Texto cedido gentilmente por Angélica Begatti Victorino.
Aos amigos que se sentirem a vontade, fica aqui o convite de adentrar esse mundo , onde ficção se torna realidade e realidade se torna ficção. O poder das palavras!Obrigada , Dé!