Sentada delicada e corretamente, com suas vestes comportadas e caras, de cores discretas, observava toda a alta sociedade, cumprimentando-a com um belo sorriso angelical e um meigo balanço com a cabeça. "Uma boneca!". Assim era titulada pelas pessoas que a viam e comentavam com seus pais e familiares. "Que garota linda, parece uma princesa!". Diziam quando a cumprimentavam. E assim permanecia, horas a fio, sem tirar o sorriso do rosto.
Por dentro ela gritava.
Seu maior desejo naquele momento era chorar, gritar e sair correndo daquele antro de hipócritas. Sentia como se seu coração estivesse furado, vazado , um vazio enorme que doía intensamente e ela não sabia o porque, não conseguia distinguir de onde exatamente ele vinha, já que os motivos plausíveis para tal eram inúmeros. Tivera uma decepção recente, a sua primeira decepção amorosa, que encetou-lhe uma nova percepção da vida, ela caiu do cavalo, descobriu que a vida não era um conto de fadas e que o príncipe encantado não viria lhe buscar em um cavalo branco para juntos viverem felizes para sempre. Era engraçado como simplesmente havia desistido do amor, da vida, esta fora sempre vivida a base de metas e paixões mesmo que platônicas, sem paixão perdia a vontade de viver, o ânimo, as forças, sentia-se como se nunca mais fosse amar novamente, mesmo não amando-o mais. Era tudo muito estranho.
Veio um rapaz tirar-lhe para dançar. Aceitou por educação, para condizer com a mascara envergada. Dançou. O rapaz falava, falava e falava, ela longe nem notara que todos os observavam, mas ela não queria nada, não queria estar ali, nos braços de um rapaz que ela nem ao menos conhecia, se pudesse fugia, corria , gritava enfim, mas como poderia fazer tal desfeita ao anfitrião da festa. Não podia sair, não podia gritar e nem se esconder. Tudo girava, tudo a perturbava como um sino estridente ao pé do ouvido. A dor agora era agonizante, cada vez mais forte, cada vez maior. E tudo girava, e todos olhavam, e ele falava, falava e falava e doía e girava. Gritava, cada vez mais alto, o sino, a dor, girava a música.
A música terminou.
Voltou para seu lugar, sentou-se delicada e corretamente, sorrindo para todos, balançando meigamente a cabeça. "Que boneca, que princesa!".
FODA-SE.AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH
