Wednesday, June 15, 2005

Segredos

(aparece uma mulher de trinta e poucos anos, esguia e com um vestido comprido, porém fendado, regando as plantas de um belo jardim)

_ Me diz, quando foi o seu primeiro beijo?Ah, o meu? Dezoito!E tranzar, quando foi sua primeira vez? Eu? vinte e oito!
Eu não era igual às outras meninas da escola, que beijavam todos os garotos, sempre fui a mais feia da turma...Eu era diferente!
Sabe, eu sou facinada por pros-ti-tu-ta! Gosto da sensação de dominar!
Ei você, faça tudo que eu mandar, me chama de PUTA!
(Diz ela abrindo as pernas e apresentando-nas assim, uma vez que as fendas de seu vestido eram bem altas)

(endireitando-se agora e voltando à posição inicial, volta a regar as plantas)

Mas enfim, como uma ótima mãe e esposa, e eficiente dona de casa que sou, não deveria dizer isso, não disse...

Thursday, June 09, 2005

Carnívora de almas

Nem tudo está a nosso alcance.
Nem tudo que queremos, temos.
Rotina maldita que destrói a vida aos poucos.
O sentir que sua vida é como um indivíduo clunâmbulo.
O amargo sabor de nada fazer, de nada ser, de nada querer.
Quase uma mulher de tpm. Vivendo como nada, para o nada.

Doce solidão que consome a alma.
Angustia que dá prazer.
Cocainomania de dor, portanto “dorinomania”.
Dentro de uma encoadura, quase morta, como um peixe ao seu saboroso destino: os estômagos humanos que pouco se importam em saber o que deixam para trás.

E vem você, sorriso aberto, me dizendo que a vida é como o mar.
Omófago de palavras. Precipitado ao dizer suas idiotas teorias de quem acha que um dia será alguém.
Eu? Simples mortal, em processo de ontogenia, estudando a ontogonia e as horríveis tradições daqueles que a vivenciam: eu.
Mais uma no meio da multidão, a devorar vidas, prazer em matar, prazer em morrer.

Sunday, June 05, 2005

Sentada delicada e corretamente, com suas vestes comportadas e caras, de cores discretas, observava toda a alta sociedade, cumprimentando-a com um belo sorriso angelical e um meigo balanço com a cabeça. "Uma boneca!". Assim era titulada pelas pessoas que a viam e comentavam com seus pais e familiares. "Que garota linda, parece uma princesa!". Diziam quando a cumprimentavam. E assim permanecia, horas a fio, sem tirar o sorriso do rosto.

Por dentro ela gritava.

Seu maior desejo naquele momento era chorar, gritar e sair correndo daquele antro de hipócritas. Sentia como se seu coração estivesse furado, vazado , um vazio enorme que doía intensamente e ela não sabia o porque, não conseguia distinguir de onde exatamente ele vinha, já que os motivos plausíveis para tal eram inúmeros. Tivera uma decepção recente, a sua primeira decepção amorosa, que encetou-lhe uma nova percepção da vida, ela caiu do cavalo, descobriu que a vida não era um conto de fadas e que o príncipe encantado não viria lhe buscar em um cavalo branco para juntos viverem felizes para sempre. Era engraçado como simplesmente havia desistido do amor, da vida, esta fora sempre vivida a base de metas e paixões mesmo que platônicas, sem paixão perdia a vontade de viver, o ânimo, as forças, sentia-se como se nunca mais fosse amar novamente, mesmo não amando-o mais. Era tudo muito estranho.

Veio um rapaz tirar-lhe para dançar. Aceitou por educação, para condizer com a mascara envergada. Dançou. O rapaz falava, falava e falava, ela longe nem notara que todos os observavam, mas ela não queria nada, não queria estar ali, nos braços de um rapaz que ela nem ao menos conhecia, se pudesse fugia, corria , gritava enfim, mas como poderia fazer tal desfeita ao anfitrião da festa. Não podia sair, não podia gritar e nem se esconder. Tudo girava, tudo a perturbava como um sino estridente ao pé do ouvido. A dor agora era agonizante, cada vez mais forte, cada vez maior. E tudo girava, e todos olhavam, e ele falava, falava e falava e doía e girava. Gritava, cada vez mais alto, o sino, a dor, girava a música.

A música terminou.

Voltou para seu lugar, sentou-se delicada e corretamente, sorrindo para todos, balançando meigamente a cabeça. "Que boneca, que princesa!".

FODA-SE.AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH