Wednesday, March 09, 2005

Eles e os outros

Lá estava ela mais uma vez, agora sozinha.
O defeito dela foi amar demais. Amou aos antigos e aos novos, tentou de maneiras inenarráveis para este misero texto, expressar esse amor à todos, mas por querer amar à todos e tentar dividir esse amor, os egoístas se cansaram e esqueceram-na.

Ela pega a corda.

Começou a ficar sozinha.Sabia que eles a amavam, mas não sabiam que ela teria amor para dar a todos eles. Começaram a fingir que ela era mais dos outros, e os outros, que ela era mais deles.E ela foi sentindo, vagarosamente em seu coração o abandono.

Ela amarra a corda no pescoço.

Lembrava-se dos dias de glória e alegria. Primeiro com eles e depois com os outros.Lembrava-se do começo, quando todos ainda estavam ao seu lado,eles e os outros...Mas agora era tudo tão distante e frio, que já doía lembrar.

Ela sobe na cadeira.

Agora eram todos mesquinhos, querendo sugar dela o resto da vida que restava.Fingiam suportá-la, mas pelas costas cuspiam-lhe tenebrosas ameaças e sangravam de ódio.Preferiam a morte à ela.E ela, sentia isso, cada vez mais.

Ela amarra a corda no cano posicionado à esquerda da cama.

Mas sabia que a dor acabaria.Por que eles a amavam e os outros também.Mas se não sabiam dividi-la, que ficassem sem ela.Pensou em fugir, mas lembrou-se de suas aulas de literatura no segundo colegial e de todos os romancistas pelos quais era fascinada. Inspirou-se neles então.E ainda ouvindo o som deles e dos outros no corredor de seu prédio, no dia do seu aniversário...

Ela empurrou a cadeira.
E agonizou.

Sobraram as lágrimas que à ela já não cabiam...
Podres deles e dos outros, que a amavam e só viram a falta, quando ela se tornou uma verdadeira romancista e a morte foi sua solução.