Ela sentou, no lugar combinado, porém quarenta e sete minutos adiantada.
Na bolsa trazia uma carteira branca com um fecho em prata, marcado pelo símbolo da loja “Youli”; a chave de casa presa a um chaveiro lilás com a inicial de seu nome, “m”;um batom vermelho, da cor do sangue;um par de luvas verdes claro; uma apiteira cinza, com seu maço de cigarros “malboro”; e sua arma em prata vivante, lustrada com carinho para a ocasião.
Sentou-se e esperou.
Ele descia as escadas, a luz acabara, já estava atrasado.Deveria ter saído a treze minutos.
No último degrau, lembrou-se que esquecera a carteira. Subiu, sete andares, cento e setenta e oito degraus, vinte passos à direita, oito no apartamento, pegou a carteira, e mais oito passos, e mais vinte passos à esquerda e mais cento e setenta e oito degraus.
Ao pé da escada novamente, lembrou-se de seu charuto, que havia ficado sobre a mesa.
Subiu.Mas na hora de descer, desistiu.
Já estava atrasado vinte e sete minutos.
Ela já teria ido embora.Sentou-se, acendeu seu charuto e fumou.
Ela , angustiada, sem saber onde ele morava, decidiu aguardar uma próxima oportunidade e agora mais do que nunca tinha certeza de qual era sua meta para com o rapaz.
Virou a esquina. Os rebeldes estavam à solta, ouviu os gritos. Não era seguro permanecer na rua mais nenhum segundo.
“Abaixo a ditadura”, cada vez mais perto.
Bateu à porta, mais ninguém abriu. E com medo de ser morta por eles, tirou sem mais nenhum pensamento sua arma, a beijou e na cabeça foi o último estalo que ela ouviu.
Pisoteada pela multidão, uma indigente qualquer.
E ele, em casa, fumando seu charuto.
Apenas, não saiu.
ps: camila, nunca aqui?
